AMIANTO
MATA 100 MIL A CADA ANO
Fonte: O Diário
São Paulo - Há 15 anos, o deputado estadual Marcos Martins
(PT) luta pela conscientização dos perigos que o amianto pode causar à saúde.
Ele é o autor da lei que baniu o asbesto, como também é conhecido o produto,
no Estado de São Paulo. Recentemente, após O Diário ter iniciado uma série
de reportagens sobre os resíduos tóxicos que contém o amianto nos galpões do
Grupo Kubota, em César de Souza, Martins tomou conhecimento do problema e começou
a cobrar providências do Governo do Estado para que o passivo da falida empresa
seja retirado e tenha a destinação correta. Em entrevista ao jornal, o
deputado revelou números assustadores. Segundo ele, a previsão da Organização
Internacional do Trabalho é a de que em 2030 tenhamos um pico de falecimentos
no mundo devido ao amianto: cerca de 250 mil mortes.
Pela sua experiência em outras cidades, os resíduos encontrados na
Kubota, em Mogi das Cruzes, são preocupantes?
Nós tivemos acesso a essa informação através do jornal O Diário que
publicou diversas matérias sobre o assunto. Por causa disso, fizemos uma visita
aos galpões da Kubota e pudemos constatar uma realidade assustadora. Os resíduos
de amianto estão espalhados, há cinco toneladas do produto in natura e ainda há
enxofre no local. Tenho certeza, pela minha experiência, que os trabalhadores
da fábrica AP, vizinha à Kubota, estão sendo expostos a riscos para a saúde,
assim como os moradores do entorno da fábrica porque basta uma fibra de amianto
para causar um dos cânceres mais malignos que existe: o mesotelioma. Precisamos
tomar providências urgentemente.
Quais serão os procedimentos que o senhor tomará, após essa visita na
empresa, para tentar solucionar o problema?
Eu estou encaminhando ofícios à Cetesb, assim como aos secretários
de Estado do Meio Ambiente e da Saúde, além do prefeito de Mogi, Marco
Bertaiolli, que foi nosso colega aqui na Assembleia. Nessa sexta-feira, vou me
encontrar com o senador Paulo Paim para pedir apoio na solução urgente dessa
questão. Fiquei sabendo, também pelo Diário, que há a possibilidade de o
Banco do Brasil ter adquirido aquela área. Vou tentar confirmar esses dados e
cobrar quem deve ser cobrado. O amianto causa problemas de saúde e ao meio
ambiente e não pode mais ficar jogado naqueles galpões.
Como o senhor começou a se interessar pela luta contra a utilização
do amianto?
Moro em Osasco e tínhamos naquela cidade duas fábricas que usavam o
amianto: a Eternit e a Lonaflex, que fechou as portas. Em 1992, o Sindicato dos
Metalúrgicos começou a divulgar uma lista de trabalhadores dessas empresas que
ficaram doentes. Muitos morreram. Depois, a Eternit proibiu seus empregados de
fazerem parte do Sindicato, o que é uma atitude suspeita. Então, o primeiro
presidente da Associação Brasileira de Expostos ao Amianto (Abrea), o Fernando
Cerri, encabeçou uma manifestação sobre os prejuízos da manipulação do
asbesto. Ele faleceu, vítima da asbestose, e em seus últimos meses de vida
tinha de dormir com um balão de oxigênio porque não conseguia respirar mais.
Na época, eu era vereador em Osasco e apresentei, por três vezes, um projeto
de lei para banir o amianto da Cidade. Somente em 2000 ele foi aprovado.
Encontrou muitas dificuldades para aprovar a lei estadual que proibiu o
uso do produto em São Paulo?
Eu assumi esse compromisso com a Abrea. Depois que me elegi deputado
estadual, meu primeiro ato foi apresentar o projeto que, de cara, foi aprovado e
virou lei. No entanto, tivemos de enfrentar uma luta jurídica grande. A Fiesp
entrou com uma liminar, mas conseguimos ganhar no Supremo Tribunal e,
finalmente, a lei foi colocada em vigor, no ano passado. Agora segue a batalha
para fiscalizar. Acredito que o Governo do Estado tenha condições para isso,
mas há a necessidade de melhorar a Vigilância Sanitária, com equipamentos
mais modernos e pessoal especializado.
Quais as cidades que vivem problemas semelhantes aos de Mogi, com relação
ao amianto?
Olha, fazemos nosso trabalho em Mogi, Avaré, Itapira e Araras. Mas
acredito que muitos outros galpões como os da Kubota ainda vão aparecer. Os
passivos das empresas são terríveis e, mais cedo ou mais tarde, terão de
surgir. Temos que nos preparar.
Há dados de mortalidade por conta do amianto, no Brasil? E como o mundo
trata essa questão?
Infelizmente, no Brasil não temos dados oficiais, ainda, de falecimentos
causados pelo amianto porque não havia uma padronização das empresas que
manipulam o produto. Entretanto, temos informações da Organização
Internacional do Trabalho (OIT) de que em 2030 teremos um pico de mortes que terão
como a causa o asbesto. A OIT estima que serão 250 mil falecimentos, em todo o
mundo. É um dado alarmante, assustador mesmo. E é compreensível porque as
doenças causadas pelo amianto, como os cânceres, por exemplo, levam tempo para
surgirem. Hoje, também de acordo com a OTI, morrem anualmente 100 mil pessoas vítimas
do amianto no mundo. Não é brincadeira.